PF aponta que órgão público alvo de operação no AM teve conhecimento prévio da ação e entregou computador 'corrompido' a agentes

  • 21/09/2026
(Foto: Reprodução)
Viaturas da Polícia Federal durante operação que apura abuso de poder econômico e político nas eleições 2026 no Amazonas Reprodução A Polícia Federal (PF) concluiu o relatório da operação realizada na Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico, Social e Ambiental (Aadesam), que investiga suposto uso da estrutura do Governo do Amazonas em benefício eleitoral e apontou indícios de que o órgão teve conhecimento prévio da decisão judicial antes da chegada dos agentes. O documento também revela que um computador apreendido foi apresentado como "corrompido" pelo servidor responsável. A operação foi realizada em 3 de setembro, no âmbito de uma investigação que apura o suposto uso da estrutura do Governo do Amazonas em benefício da campanha à reeleição do governador Roberto Cidade (União Brasil). Além do governador, os relatórios citam o vice-governador Serafim Corrêa (PSB), que integra a chapa à reeleição, e o presidente da Aadesam, William Alexandre Silva de Abreu. No domingo (20), o Ministério Público Eleitoral pediu o afastamento de William da presidência do órgão. O documento foi obtido com exclusividade pelo g1. Segundo a PF, a busca e apreensão foi autorizada pela Justiça Eleitoral após informações indicarem que documentos e dados que deveriam ser preservados poderiam estar sendo destruídos, ocultados ou alterados por agentes públicos. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp A decisão foi assinada pela desembargadora Nélia Caminha Jorge, do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM), em 31 de agosto. Dias antes, em 19 de agosto, a Justiça já havia determinado que a Aadesam preservasse e apresentasse documentos relacionados a admissões e desligamentos de servidores realizados a partir de 1º de julho de 2026. Segundo a PF, o procedimento apura possíveis irregularidades relacionadas a transferência desses servidores da capital para o interior do estado que, de acordo com denúncia, poderiam ter motivação eleitoral. MPF investiga: Roberto Cidade é suspeito de buscar votos com estrutura do governo Diante da suspeita de possível destruição de provas, a PF recebeu autorização para apreender documentos, computadores, notebooks, mídias removíveis e outros dispositivos eletrônicos. Computador do RH foi apresentado como "corrompido" Durante a operação, um dos equipamentos chamou a atenção dos investigadores. De acordo com a PF, o computador utilizado pelo setor de Recursos Humanos havia sido encaminhado para manutenção na mesma manhã da diligência. No relatório, os investigadores informam que o equipamento foi localizado na sala de rede da agência e apresentado pelo setor de tecnologia com a informação de que estava "corrompido". "Na Gerência de Recursos Humanos, o gerente informou que sua máquina teria apresentado defeito na manhã daquele mesmo dia, motivo pelo qual o equipamento fora encaminhado à manutenção junto ao setor de Tecnologia da Informação da agência. O computador da marca Positivo, foi então localizado na sala de rede da agência, recolhido pelo chefe do referido setor e apresentado à equipe com a informação de que estaria corrompido, não avançando a inicialização além da tela de BIOS", diz trecho do relatório. Segundo a PF, apenas uma perícia poderá apontar a origem do problema e verificar se houve formatação, apagamento de dados ou outro tipo de dano no equipamento. O computador foi apreendido para análise técnica. Agência já sabia da decisão judicial Outro ponto destacado pela PF foi o fato de a Aadesam já ter conhecimento da decisão judicial antes da chegada dos agentes. Segundo o relatório, funcionários e o presidente da agência informaram que a ordem havia sido identificada por meio de uma notificação automática do sistema processual. Por isso, os documentos requisitados pela Justiça já estariam separados quando a equipe policial chegou ao local. A PF registrou que a defesa da instituição entregou espontaneamente um pen drive de 128 GB contendo documentos que, segundo o advogado da agência, atendiam às determinações judiciais. O dispositivo também foi apreendido. "Ao início da diligência, o advogado informou haver protocolizado petição nos autos da medida cautelar, com pedido de revogação da decisão instruída com cópia da documentação exigida. Na sequência, apresentou dispositivo de armazenamento do tipo pen drive, marca Multilaser, de 128 GB, informando conter a documentação relativa aos itens descritos no mandado", registraram os investigadores. LEI TAMBÉM: Polícia Federal realiza ação em Manaus para investigar possíveis crimes eleitorais Notebook foi encontrado após negativa de servidores A PF também relata que encontrou um notebook na antessala da Presidência da Aadesam. Segundo os investigadores, William Alexandre Silva de Abreu e outros servidores haviam informado que não existiam outros notebooks, mídias removíveis ou celulares corporativos no local. Apesar disso, durante as buscas, os agentes localizaram o equipamento ao lado do computador usado pela Presidência. “Questionados especificamente acerca da existência de notebooks, mídias removíveis e aparelhos celulares corporativos naquele ambiente, o presidente e os funcionários responderam verbalmente que não havia outros equipamentos no local. Prosseguindo a busca na antessala, e não obstante a resposta negativa acima referida, foi ali localizado um notebook da marca Samsung, acompanhado de carregador, ao lado do computador do tipo all in one indicado como sendo o de uso da Presidência”, registram os investigadores no relatório. Além desse equipamento, a PF apreendeu outro computador utilizado pela Presidência e um celular que, segundo o relatório, era usado em comunicações com funcionários e foram desligados nos dias 3 e 4 de julho deste ano. Defesa contestou apreensões Sede da Aadesam durante cumprimento de mandado de busca e apreensão pela PF Reprodução/Relatório da PF obtido pelo g1 A PF informou que o advogado da Aadesam contestou verbalmente a retirada dos computadores, argumentando que a decisão judicial não autorizava a apreensão física dos equipamentos. Os investigadores afirmam, porém, que a alegação não foi acolhida porque o mandado não continha essa restrição. Segundo a PF, a apreensão foi necessária para preservar a cadeia de custódia dos dados e evitar possíveis alterações nas informações armazenadas. Outras buscas Além da ação na Aadesam, a PF cumpriu outros mandados de busca e apreensão, na Zona Sul da capital, relacionados à mesma investigação. Em um comitê de campanha localizado no bairro Japiim, os investigadores procuravam computadores que, segundo a decisão judicial, poderiam conter registros paralelos de gastos de campanha feitos com dinheiro em espécie. Nenhum dos equipamentos mencionados foi encontrado. A PF apreendeu apenas um notebook localizado no térreo do imóvel, que estava protegido por senha e não pôde ser acessado no local. Em outro endereço, no bairro Morro da Liberdade, os policiais encontraram um caderno com nomes de pessoas que aparentavam trabalhar na campanha. Como não havia registros de valores, o material não foi apreendido. Já em uma entidade localizada no bairro Aparecida, nenhum material relacionado à investigação foi encontrado, segundo a PF. O que diz o Governo do Amazonas Em nota, o Governo do Amazonas afirmou que a Aadesam tem prestado todos os esclarecimentos solicitados pelas autoridades e mantém postura de colaboração com a Justiça. Segundo o Executivo estadual, a agência já havia encaminhado espontaneamente documentos relacionados ao caso antes do cumprimento do mandado de busca e apreensão e seguirá à disposição para fornecer novas informações. O g1 entrou em contato com o vice-governador Serafim Correa, que não quis se manifestar sobre o assunto. O governador também Roberto Cidade foi questionado, mas até a última atualização desta reportagem, não houve resposta. O g1 tenta contato com a defesa do presidente da Aadesam, William Alexandre Silva de Abreu.

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/09/21/pf-aponta-que-orgao-publico-alvo-de-operacao-no-am-teve-conhecimento-previo-da-acao-e-entregou-computador-corrompido-a-agentes.ghtml


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