Laudo aponta que jovem morto na Zona Oeste de Manaus não atirou e contesta versão de PMs investigados

  • 28/05/2026
(Foto: Reprodução)
João Paulo Maciel, de 19 anos, morto em ação da PM Amazonas Divulgação O exame residuográfico realizado pelo Instituto de Criminalística apontou resultado negativo para a presença de partículas de chumbo nas mãos de João Paulo Maciel dos Santos, de 19 anos. O jovem foi morto a tiros durante uma ação da Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam), no beco Arthur Virgílio, bairro Vila da Prata, Zona Oeste de Manaus, em outubro de 2025. O caso ganhou repercussão após a divulgação de imagens registradas no momento da abordagem policial, que mostra João Paulo sendo levado vivo por PMs a um beco. Minutos depois, os policiais saem do local carregando o corpo do jovem enrolado em um pano. O laudo obtido com exclusividade pelo g1 afasta a hipótese de que João Paulo estivesse armado ou tenha atirado contra os policiais. A conclusão pericial anexada ao processo contradiz a versão apresentada pelos militares em depoimentos sobre a ocorrência. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp "Da efetiva inexistência de partículas de chumbo na amostra suspeita analisada. Neste caso, a conclusão sobre o fato é a de que não houve disparo de arma de fogo", diz trecho do laudo. MP investiga suspeita de execução de jovem morto após abordagem da PM em Manaus O g1 procurou a Polícia Militar do Amazonas (PMAM) para comentar o resultado do laudo pericial, que não encontrou vestígios de disparo de arma de fogo nas mãos de João Paulo, além da contradição entre a perícia e os depoimentos dos policiais envolvidos na ocorrência, que afirmaram ter havido troca de tiros. Também questionou se foi aberto algum procedimento administrativo ou inquérito militar para apurar a atuação dos agentes e se os policiais seguem integrados ao quadro da corporação durante as investigações, mas até a última atualização desta reportagem, não obteve retorno. Policiais disseram que houve troca de tiros Em depoimentos também obtidos pelo g1, os policiais militares que participaram da ação mantiveram a versão de que agiram em legítima defesa após serem recebidos a tiros por um grupo de suspeitos em uma área de palafitas. No depoimento, o capitão da Polícia Militar responsável pela ocorrência afirmou que a equipe foi ao local após denúncias de tráfico de drogas. "Foram efetuados disparos de arma de fogo contra os policiais, vindos da parte de baixo da residência, desencadeando troca de tiros entre eles; que o nacional, que trocava tiros com os policiais, foi alvejado", diz um dos depoimentos. Outro policial militar ouvido como testemunha reforçou a mesma versão. Segundo ele, a equipe se identificou antes da abordagem e reagiu após os disparos. "foi necessário a troca de tiros; o nacional foi alvejado pelo capitão". Um relatório de sindicância interna da Polícia Militar também registrou que os agentes "ao reagirem a novos tiros disparados, ocorreu a morte do jovem João Paulo". O g1 tenta localizar a defesa dos policiais. Pai de jovem morto em ação da PM em Manaus nega envolvimento com drogas: 'Acordava às 5h para trabalhar' Advogada da família de jovem morto em ação da PM em Manaus denuncia execução: 'Foi sentenciado à morte' Policiais foram presos em operação do MP Em março deste ano, o Ministério Público do Amazonas deflagrou a operação "Simulacrum" que prendeu 10 policiais investigados pela morte do jovem. A operação foi conduzida pelas 60ª e 61ª Promotorias de Justiça Especializadas no Controle Externo da Atividade Policial e Segurança Pública. Na época, a Justiça autorizou 38 mandados, sendo 11 de prisão preventiva, 19 de busca e apreensão e oito medidas cautelares diversas da prisão. A decisão foi expedida pela 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital. Entre os presos, está o capitão da PM Wilkens Diego Feitosa da Silva, da tropa especializada Rocam. O caso Segundo informações da Ronda Ostensiva Cândido Mariano (Rocam), os policiais foram ao beco após uma denúncia anônima sobre a venda de entorpecentes por criminosos armados. Os policias solicitaram apoio e iniciaram uma perseguição. Ao entrarem em uma passagem na lateral de uma residência, os policiais afirmaram terem sido atacados a tiros. Entretanto, moradores e testemunhas contestam a versão da polícia. No vídeo gravado por uma testemunha, é possível ver os agentes abordando um homem sem camisa. O suspeito leva as mãos a cabeça e é revistado sem demonstrar reação. Em seguida, ao menos um policial aparece levando o homem para a passagem lateral de uma residência enquanto um grupo com cerca de seis policiais permanece no local da abordagem. Pouco tempo depois, outros dois agentes entraram na mesma passagem lateral caminhando e logo saem do local carregando um corpo. Revolta da população Mãe da vítima e outros parentes pediram por Justiça durante a manifestação Bruna Pinheiro/Divulgação Um dia após a morte, familiares e amigos realizaram uma manifestação na Avenida Brasil, no bairro Compensa, Zona Oeste. Durante o protesto, os manifestantes levaram cartazes e gritaram por Justiça, atearam fogo a restos de lixo, madeira e pneus e bloquearam a Avenida Brasil. O trânsito na região ficou totalmente bloqueado enquanto a Polícia Militar chegava com reforço para conter os manifestantes. Tiros de balas de borracha chegaram a ser disparados para dispersar a multidão. A mãe da vítima, Jeciara Maciel, participou da manifestação e questionou a morte do filho, além de exigir Justiça. "Mataram meu filho, hoje o enterrei. Pegaram meu filho, ele já estava rendido. Levaram ele para baixo de uma casa. Executaram meu filho. Ele desceu com vida e voltou sem vida. Eu quero Justiça pela vida do meu filho", disse. Na ocasião, o Secretário de Segurança Pública, Coronel Vinicius Almeida, informou que estava deslocando o efetivo de segurança pública para encerrar uma manifestação em homenagem a um traficante de Manaus morto na megaoperação no Rio de Janeiro. A defesa família do jovem contestou a versão e disse que o ato foi um pedido legítimo de justiça e que a resposta do Estado foi desproporcional e violenta. "Foi uma manifestação pacífica, com moradores locais segurando cartazes. Não houve tumulto, não houve vandalismo. Tinha criança no local, e a polícia chegou atirando sem saber em quem. Foi uma ação hostil e excessiva", disse a advogada Thayane Costa.

FONTE: https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/05/28/laudo-aponta-que-jovem-morto-na-zona-oeste-de-manaus-nao-atirou-e-contesta-versao-de-pms-investigados.ghtml


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